sexta-feira, 18 de março de 2011

Inside Job

Recomendo vivamente que vejam este filme.



Aqui se percebe facilmente como se governa hoje em dia o Mundo. Talvez o filme esteja demasiado focado nos intervenientes corruptos e pouco no problema sistémico, mas mesmo assim é um filme obrigatório para quem quer compreender a crise financeira de 2008 e quais foram as medidas que (não) foram tomadas para contrariar os problemas que os mercados financeiros teêm.
Tem entrevistas com grande parte dos economistas notáveis actuais (mainstream) e coloca alguns deles em situações que eles não estariam à espera.

Hugo Confraria

Why Did Economists Not Foresee the Crisis?

"I would argue that three factors largely explain our collective failure: specialization, the difficulty of forecasting, and the disengagement of much of the profession from the real world.

Like medicine, economics has become highly compartmentalized – macroeconomists typically do not pay attention to what financial economists or real-estate economists study, and vice versa. Yet, to see the crisis coming would have required someone who knew about each of these areas – just as it takes a good general practitioner to recognize an exotic disease. Because the profession rewards only careful, well-supported, but necessarily narrow analysis, few economists try to span sub-fields."

Raghuram Rajan

A pergunta que a Rainha de Inglaterra fez à “London School of Economics” tem todo o sentido. Com tanto economista, tanto especialista, tanta gente com tanto conhecimento sobre a história e sobre o comportamento dos mercados como foi possível chegarmos ao estado em que o Mundo está?

Este investigador (ex-economista chefe do FMI) ilucida-nos neste artigo sobre alguns dos factores que levaram a isto.

A economia é uma ciência social extremamente complexa, cheia de interdependências, não determinística, adaptativa, em que o funcionamento do sistema se parece muito mais com algo caótico do que com algo em equilíbrio. Por outro lado, a maioria dos modelos que os economistas utilizam partem de pressupostos como a existência de equilíbrio entre Procura e Oferta; que o consumidor tem acesso a toda a informação existente no mercado e que a concorrência é pura e perfeita, ou seja, infinita. Ora, isto evidentemente está errado, são apenas condições para podermos tentar calcular e prever uma série de acontecimentos. Se utilizamos modelos em que os pressupostos estão à partida errados, então claramente os resultados vão sair todos enviesados.

A especialização da investigação (que coloca palas ás pessoas para a compreensão geral do funcionamento do todo), a corrupção de resultados das investigações (subornos de certos políticos e instituições para estudos com resultados que lhes são favoráveis) e a ideologia de certos economistas são factores que condicionam o funcionamento correcto desta ciência social. Considero pessoalmente este último factor essencial para o falhanço da economia como ciência. Penso que esta profissão não pode de forma alguma ser ideológica, tem de buscar ao máximo a verdade científica e não basear as escolhas segundo certos dogmas como a “eficiência dos mercados”.

Como disse anteriormente o Sistema-Mundo é incrivelmente complexo e está minado por motivações e estímulos comportamentais corruptos e interesseiros. Devemos desenvolver sim vectores e ideais que levem à justiça, igualdade, felicidade e sustentabilidade mas não de forma fechada e fundamentalista. A perceção e compreensão da complexidade pode ser um caminho.

Hugo Confraria

sábado, 12 de março de 2011

Sobre o capitalismo e o desejo

Livro A Ilha Deserta – Artigos, entrevistas, textos esparsos de Gilles Deleuze.

Capítulo 35: Sobre o capitalismo e o desejo (com Felix Guattari) – 1973.

(...) Todas as sociedades são ao mesmo tempo racionais e irracionais. São forçosamente racionais pelos seus mecanismos, rodas, sistemas de ligação, e mesmo pelo lugar que reservam ao irracional. Porém, tudo isso pressupõe códigos ou axiomas que não são produtos do acaso, mas que também não possuem uma racionalidade intrínseca. É como na teologia: tudo é perfeitamente racional se se postular o pecado, a imaculada concepção, a encarnação. A razão é sempre uma região talhada no irracional. De modo algum ao abrigo do irracional, mas uma região atravessada pelo irracional, e definida apenas por um certo tipo de relações entre fatores irracionais. No fundo de toda razão, o delírio, a deriva. Tudo é irracional no capitalismo, exceto o capital ou o capitalismo. Um mecanismo da bolsa é perfeitamente racional, podemos compreendê-lo, aprendê-lo, os capitalistas sabem servir-se bem dele, e, no entanto é completamente delirante, é demente. É nesse sentido que dizemos: o racional é sempre a racionalidade de um irracional. Há algo que nunca foi suficientemente notado n’O Capital de Marx: até que ponto está ele fascinado pelos mecanismos capitalistas, precisamente por serem simultaneamente dementes e funcionarem muito bem. Então, que é racional numa sociedade? É – estando os interesses definidos no quadro desta sociedade – a maneira como as pessoas os perseguem, perseguem a sua realização. Mas, por baixo, há desejos, investimentos de desejos que não se confundem com os investimentos de interesse, e dos quais os interesses dependem na sua determinacão e mesmo na sua distribuição: todo um enorme fluxo, todas as espécies de fluxos libidinais-inconscientes que constituem o delírio desta sociedade. A verdadeira história é a história do desejo. Um capitalista ou um tecnocrata atuais não desejam da mesma maneira que um mercador de escravos ou que um funcionário do antigo império chinês. Que as pessoas numa sociedade desejem a repressão para os outros e para si mesmas; que haja sempre pessoas que queiram lixar outras e que tenham a possibilidade de fazê-lo, o “direito”de fazê-lo, é isso que manifesta o problema de um liame profundo entre o desejo libidinal e o campo social. Um amor “desinteressado”pela máquina opressiva: Nietzsche disse coisas belas sobre o triunfo permanente dos escravos, sobre a maneira como os azedados, os deprimidos, os débeis nos impõe o seu modo de vida.


Este artigo foi sugerido pelo meu amigo e colega de casa Ennio Balbi Flores.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Life after Capitalism

"Capitalism’s defenders sometimes argue that the spirit of acquisitiveness is so deeply ingrained in human nature that nothing can dislodge it. But human nature is a bundle of conflicting passions and possibilities. It has always been the function of culture (including religion) to encourage some and limit the expression of others."
Robert Skidelsky

Parece-me que a mudança que está hoje a existir por todo o mundo se está a aperceber disto. Que nós somos um produto de uma cultura e de um conjunto de experiências que existem e que podem ser moldados.
Esta exorbitância de informação que estamos a receber todos os dias de todo o lado vai mudar a nossa percepção global do mundo. E vai transformar estes tempo numa mudança enorme de paradigma.
O ser humano é pensante e pode organizar-se na maneira que bem entender. Ter uma existência de interesse próprio não parece ser a melhor forma de interagir que existe. A mudança vai chegar e a ganância vai deixar de existir. Vamos viver tempos excepcionais!

Hugo Confraria

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Eleições

Não consigo de deixar de registar com alguma estupefacção que, atendendo ao momento em que vivemos, atendendo às queixas diárias que todos ouvimos da boca dos cidadãos portugueses, no café, na faculdade, no autocarro, etc., depois de termos num curto espaço de tempo legislativas e presidenciais, o que mudou? A resposta a esta questão todos nós já a sabíamos antecipadamente: nada mudou. Reeleições. Assim foi a vontade de quem votou (e de quem não votou também...). O povo queixa-se, mas quando chega a hora de puder mudar algo, nada muda. Assim, duas interrogações me assolam a mente: estará a classe política completamente desacreditada e o povo não acredita que algo mudará e tem mais com que se preocupar que escutar os seus políticos? Ou será que nós somos, como dizia um alemão radicado em Portugal, um povo que refila muito mas reclama pouco? Para reflectir...

domingo, 16 de janeiro de 2011

Global Warming or just another Bubble?

"O ritmo de extracção dos recursos naturais e o crescendo das emissões poluentes resultantes da indústria e dos transportes, foram acelerados à medida que o modo de produção capitalista se impôs mundialmente. Este modo de produção, a par da sua força revolucionária inicial, é, por natureza, predatório e desregulado. E o seu poder adaptativo tem, inclusive, o condão de contaminar as alternativas políticas e económicas socialistas que se formaram em diversas regiões eurasiáticas, pressionando-as a “competir” com ele em vários tabuleiros e, assim, levando-as a não conseguirem originar um forma de produção industrial alternativa e sustentável. E, quando não vai lá através do binómio competição-sedução, recorre aos bloqueios ou à agressão bélica."
Demétrio Alves

Esta coisa do aquecimento global sempre me fez um pouco de espécie. A partir do momento que vi o "The Inconvenient Truth" (2006) do Al Gore fiquei a achar que as excessivas emissões de CO2 que fazemos seriam um grave problema dentro em breve. Por outro lado, vi alguns climatólogos vir dizer que ele era um alarmista e interesseiro, porque ainda não havia provas científicas concretas que existia uma correlação entre a grande quantidade de CO2 existente na atmosfera e a subida das temperaturas.

Nos anos seguintes assistimos a um novo tipo de marketing intitulado "Greenwash", em que o objectivo seria dar à opinião pública uma imagem ecologicamente responsável dos serviços ou produtos prestados por uma empresa, tendo no entanto a organização uma actuação contrária aos interesses ecológicos. Hoje em dia todos os produtos são amigos do ambiente. Este fenómeno mostrou o poder adaptativo e maléfico do capital.

Obviamente que passar para um consumo energético sustentável é o futuro, mas existem problemas muito mais importantes que este para já. As desigualdades sociais, a pobreza, a educação para todos, a perda de biodiversidade, o acesso à água potável nalgumas populações, o consumo desmedido de matérias-primas, são questões tão ou mais importantes mas que não têm tido tanto patrocínio financeiro devido, principalmente, a não serem tão lucrativas como as energias renováveis.

Outro argumento muito bem descrito neste texto acima é que as energias renováveis servem de ataque aos BRIC (Brasil, Rússia, India e China). São países a crescer muito mais que os ocidentais e que por isso já são potências Geopolíticas que podem ferir a Hegemonia Imperialista Anglo-Saxónica. Dizer como foi dito em Copenhaga que estes países têm de reduzir as emissões poluidoras é não olhar para a própria história sabendo que a supremacia actual Ocidental foi conseguida através da Revolução Industrial.
A maioria das emissões que foram feitas em termos temporais são dos países desenvolvidos. Eles têm uma dívida ecológica para com os países em desenvolvimento. É um problema complexo porque não temos moral para impedir que os países mais pobres usem a energia mais barata (petróleo) para se desenvolver como nós fizemos, por outro lado, se isso acontecer as populações gigantescas dos BRIC vão poluir tanto que aí sim os problemas ecológicos serão sérios.

Veremos...

O texto acima vale o tempo despendido nele.

Hugo Confraria