domingo, 27 de março de 2011
A educação em Portugal
segunda-feira, 21 de março de 2011
"O Anti-Édipo tem como subtítulo Capitalismo e esquisofrenia."
Mesmo livro, cap. 30: Capitalismo e esquizofrenia, com Felix Guattari (1972).
Questão: "O Anti-Édipo tem como subtítulo Capitalismo e esquisofrenia. Qual é a razão disso? Vocês partiram de quais idéias fundamentais?
A idéia fundamental talvez seja a seguinte: o inconsciente “produz”. Dizer que ele produz significa que é preciso parar de tratá-lo, como se o fez até então, como uma espécie de teatro onde se representaria um drama privilegiado, o drama de Édipo. Nós pensamos que o inconsciente não é um teatro, mas antes uma usina. Artaud disse algo belíssimo sobre isso. Ele disse que o corpo, e acima de tudo o corpo doente, é como uma usina superaquecida. Não um teatro, portano. Dizer que o inconsciente “produz”, significa dizer que ele é uma espécie de mecanismo que prodiz outros mecanismos. Para nós, isso quer dizer que o inconsciente nada tem a ver como uma representação teatral, mas como algo que poderíamos chamar de “máquinas desejantes”. É preciso que nos entendamos sobre o termo “mecanismo”. Como teoria biológica, o mecanismo nunca soube compreender o desejo. Ele o ignora, fundamentalmente, porque não consegue integrá-lo em seus modelos. Quando falamos de máquinas desejantes, do inconsciente, do incosciente como um mecanismo de desejo, queremos dizer algo bem diferente. Desejar consiste no seguinte: fazer cortes, deixar correr alguns fluxos, antecipá-los, cortar as cadeias nas quais eles se enlaçam. Todo esse sistema do inconsciente ou do desejo que corre, que corta, que deixa correr, esse sistema absolutamente literal do inconsciente, ao contrário do que pensa a psicanálise tradicional, esse sustema nada significa. Não há ai nenhum sentido, nenhuma interpretação a ser dada, isso não quer dizer nada. O problema é saber como funciona o incosciente. É um problema de uso das máquinas, de funcionamento das “máquinas desejantes” (...).”
Gosto da parte que ele diz que o sistema absolutamente literal. Abaixo aos papais e mamães, e interpretações singulares... quero frango assado no mínimo...
Parabéns pelo blog.
Nota: Esta publicação foi-me pedida pelo meu amigo Ennio, em forma de resposta ao mister Huguinni.
sexta-feira, 18 de março de 2011
Inside Job
Aqui se percebe facilmente como se governa hoje em dia o Mundo. Talvez o filme esteja demasiado focado nos intervenientes corruptos e pouco no problema sistémico, mas mesmo assim é um filme obrigatório para quem quer compreender a crise financeira de 2008 e quais foram as medidas que (não) foram tomadas para contrariar os problemas que os mercados financeiros teêm.
Tem entrevistas com grande parte dos economistas notáveis actuais (mainstream) e coloca alguns deles em situações que eles não estariam à espera.
Hugo Confraria
Why Did Economists Not Foresee the Crisis?
Raghuram Rajan
A pergunta que a Rainha de Inglaterra fez à “London School of Economics” tem todo o sentido. Com tanto economista, tanto especialista, tanta gente com tanto conhecimento sobre a história e sobre o comportamento dos mercados como foi possível chegarmos ao estado em que o Mundo está?
Este investigador (ex-economista chefe do FMI) ilucida-nos neste artigo sobre alguns dos factores que levaram a isto.
A economia é uma ciência social extremamente complexa, cheia de interdependências, não determinística, adaptativa, em que o funcionamento do sistema se parece muito mais com algo caótico do que com algo em equilíbrio. Por outro lado, a maioria dos modelos que os economistas utilizam partem de pressupostos como a existência de equilíbrio entre Procura e Oferta; que o consumidor tem acesso a toda a informação existente no mercado e que a concorrência é pura e perfeita, ou seja, infinita. Ora, isto evidentemente está errado, são apenas condições para podermos tentar calcular e prever uma série de acontecimentos. Se utilizamos modelos em que os pressupostos estão à partida errados, então claramente os resultados vão sair todos enviesados.
A especialização da investigação (que coloca palas ás pessoas para a compreensão geral do funcionamento do todo), a corrupção de resultados das investigações (subornos de certos políticos e instituições para estudos com resultados que lhes são favoráveis) e a ideologia de certos economistas são factores que condicionam o funcionamento correcto desta ciência social. Considero pessoalmente este último factor essencial para o falhanço da economia como ciência. Penso que esta profissão não pode de forma alguma ser ideológica, tem de buscar ao máximo a verdade científica e não basear as escolhas segundo certos dogmas como a “eficiência dos mercados”.
Como disse anteriormente o Sistema-Mundo é incrivelmente complexo e está minado por motivações e estímulos comportamentais corruptos e interesseiros. Devemos desenvolver sim vectores e ideais que levem à justiça, igualdade, felicidade e sustentabilidade mas não de forma fechada e fundamentalista. A perceção e compreensão da complexidade pode ser um caminho.
Hugo Confraria
segunda-feira, 14 de março de 2011
sábado, 12 de março de 2011
Sobre o capitalismo e o desejo
Livro A Ilha Deserta – Artigos, entrevistas, textos esparsos de Gilles Deleuze.
Capítulo 35: Sobre o capitalismo e o desejo (com Felix Guattari) – 1973.
(...) Todas as sociedades são ao mesmo tempo racionais e irracionais. São forçosamente racionais pelos seus mecanismos, rodas, sistemas de ligação, e mesmo pelo lugar que reservam ao irracional. Porém, tudo isso pressupõe códigos ou axiomas que não são produtos do acaso, mas que também não possuem uma racionalidade intrínseca. É como na teologia: tudo é perfeitamente racional se se postular o pecado, a imaculada concepção, a encarnação. A razão é sempre uma região talhada no irracional. De modo algum ao abrigo do irracional, mas uma região atravessada pelo irracional, e definida apenas por um certo tipo de relações entre fatores irracionais. No fundo de toda razão, o delírio, a deriva. Tudo é irracional no capitalismo, exceto o capital ou o capitalismo. Um mecanismo da bolsa é perfeitamente racional, podemos compreendê-lo, aprendê-lo, os capitalistas sabem servir-se bem dele, e, no entanto é completamente delirante, é demente. É nesse sentido que dizemos: o racional é sempre a racionalidade de um irracional. Há algo que nunca foi suficientemente notado n’O Capital de Marx: até que ponto está ele fascinado pelos mecanismos capitalistas, precisamente por serem simultaneamente dementes e funcionarem muito bem. Então, que é racional numa sociedade? É – estando os interesses definidos no quadro desta sociedade – a maneira como as pessoas os perseguem, perseguem a sua realização. Mas, por baixo, há desejos, investimentos de desejos que não se confundem com os investimentos de interesse, e dos quais os interesses dependem na sua determinacão e mesmo na sua distribuição: todo um enorme fluxo, todas as espécies de fluxos libidinais-inconscientes que constituem o delírio desta sociedade. A verdadeira história é a história do desejo. Um capitalista ou um tecnocrata atuais não desejam da mesma maneira que um mercador de escravos ou que um funcionário do antigo império chinês. Que as pessoas numa sociedade desejem a repressão para os outros e para si mesmas; que haja sempre pessoas que queiram lixar outras e que tenham a possibilidade de fazê-lo, o “direito”de fazê-lo, é isso que manifesta o problema de um liame profundo entre o desejo libidinal e o campo social. Um amor “desinteressado”pela máquina opressiva: Nietzsche disse coisas belas sobre o triunfo permanente dos escravos, sobre a maneira como os azedados, os deprimidos, os débeis nos impõe o seu modo de vida.
Este artigo foi sugerido pelo meu amigo e colega de casa Ennio Balbi Flores.