terça-feira, 5 de outubro de 2010

Manifesto dos economistas aterrorizados

"Apesar de tudo o que aconteceu, o G20 persiste ainda hoje na ideia de que os mercados financeiros constituem o melhor mecanismo de afectação do capital. A primazia e integridade dos mercados financeiros continuam por isso a ser os objectivos finais da nova regulação financeira. A crise é interpretada não como o resultado inevitável da lógica dos mercados desregulados, mas sim como um efeito da desonestidade e irresponsabilidade de certos actores financeiros, mal vigiados pelos poderes públicos.

A crise, porém, encarregou-se de demonstrar que os mercados não são eficientes e que não asseguram uma afectação eficaz do capital. As consequências deste facto em matéria de regulação e de política económica são imensas. A teoria da eficiência assenta na ideia de que os investidores procuram (e encontram) a informação mais fiável possível quanto ao valor dos projectos que competem entre si por financiamento. Segundo esta teoria, o preço que se forma num mercado reflecte a avaliação dos investidores e sintetiza o conjunto da informação disponível: constitui, portanto, um bom cálculo do verdadeiro valor dos activos. Ou seja, supõe-se que esse valor resume toda a informação necessária para orientar a actividade económica e, desse modo, a vida social. O capital é, portanto, investido nos projectos mais rentáveis, deixando de lado os projectos menos eficazes. Esta é a ideia central da teoria: a concorrência financeira estabelece preços justos, que constituem sinais fiáveis para os investidores, orientando eficazmente o crescimento económico.

Mas a crise veio justamente confirmar o resultado de diversos trabalhos científicos que puseram esta proposição em causa. A concorrência financeira não estabelece, necessariamente, preços justos. Pior: a concorrência financeira é, frequentemente, destabilizadora e conduz a evoluções de preços excessivas e irracionais, as chamadas bolhas financeiras."


Grande leitura sobre a crise e dívida na Europa.

Leiam e comentem. Muito enriquecedor.

(Link no título)



Hugo Confraria

1 comentário:

  1. Muito bom manifesto. Mesmo não concordando com certas correntes nem com certas medidas, outras porém parecem-me acertadas e deveriam ser mesmo adoptadas. Nomeadamente o poder adquirido pelas agências de rating. É excessivo, é incompreensível, é inaceitável o poder que apenas 3 agências adquiriram neste mundo. Esta é uma das faces visíveis do capitalismo selvagem que tem de ser combatida. Como podem 3 entidades ter maior poder de influência que os próprios governos? E que moralidade têm estas mesmas entidades de "aconselhar" medidas a serem tomadas por um governo dentro do seu mesmo país com risco de verem ser alterados os seus níveis de risco? Não sendo eu tão dramático nem defensor da mudança de sistema, claramente as faces do capitalismo selvagem têm de ser apagadas do nosso mundo económico e financeiro...

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