Livro A Ilha Deserta – Artigos, entrevistas, textos esparsos de Gilles Deleuze.
Capítulo 35: Sobre o capitalismo e o desejo (com Felix Guattari) – 1973.
(...) Todas as sociedades são ao mesmo tempo racionais e irracionais. São forçosamente racionais pelos seus mecanismos, rodas, sistemas de ligação, e mesmo pelo lugar que reservam ao irracional. Porém, tudo isso pressupõe códigos ou axiomas que não são produtos do acaso, mas que também não possuem uma racionalidade intrínseca. É como na teologia: tudo é perfeitamente racional se se postular o pecado, a imaculada concepção, a encarnação. A razão é sempre uma região talhada no irracional. De modo algum ao abrigo do irracional, mas uma região atravessada pelo irracional, e definida apenas por um certo tipo de relações entre fatores irracionais. No fundo de toda razão, o delírio, a deriva. Tudo é irracional no capitalismo, exceto o capital ou o capitalismo. Um mecanismo da bolsa é perfeitamente racional, podemos compreendê-lo, aprendê-lo, os capitalistas sabem servir-se bem dele, e, no entanto é completamente delirante, é demente. É nesse sentido que dizemos: o racional é sempre a racionalidade de um irracional. Há algo que nunca foi suficientemente notado n’O Capital de Marx: até que ponto está ele fascinado pelos mecanismos capitalistas, precisamente por serem simultaneamente dementes e funcionarem muito bem. Então, que é racional numa sociedade? É – estando os interesses definidos no quadro desta sociedade – a maneira como as pessoas os perseguem, perseguem a sua realização. Mas, por baixo, há desejos, investimentos de desejos que não se confundem com os investimentos de interesse, e dos quais os interesses dependem na sua determinacão e mesmo na sua distribuição: todo um enorme fluxo, todas as espécies de fluxos libidinais-inconscientes que constituem o delírio desta sociedade. A verdadeira história é a história do desejo. Um capitalista ou um tecnocrata atuais não desejam da mesma maneira que um mercador de escravos ou que um funcionário do antigo império chinês. Que as pessoas numa sociedade desejem a repressão para os outros e para si mesmas; que haja sempre pessoas que queiram lixar outras e que tenham a possibilidade de fazê-lo, o “direito”de fazê-lo, é isso que manifesta o problema de um liame profundo entre o desejo libidinal e o campo social. Um amor “desinteressado”pela máquina opressiva: Nietzsche disse coisas belas sobre o triunfo permanente dos escravos, sobre a maneira como os azedados, os deprimidos, os débeis nos impõe o seu modo de vida.
Este artigo foi sugerido pelo meu amigo e colega de casa Ennio Balbi Flores.
Adorei..
ResponderEliminar"o racional é sempre a racionalidade de um irracional."
Nós ainda nem sabemos como funciona a nossa racionalidade e no entanto denominamo-nos animais racionais. A irracionalidade e o sub-consciente estão muitíssimo presentes nas nossas escolhas "racionais". Somos animais como os outros.